Primavera de Marta - Mensagem do dia 04.04.2022
- Casa de Jesus

- 4 de abr. de 2022
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Parecerá a muitos raciocínios apressados que a sociedade parece exibir, de maneira iniludível, um regresso lamentável de cultura e civilidade ao apresentar, em pleno auge da tecnologia e das ciências, as aberrações que hoje degradam a pessoa humana.
Como conceber que o pensamento que criou bólides espaciais não tripuladas, a varrerem o solo marciano em busca de alguma forma de vida, seja o mesmo que no chão do mundo promova a guerra e o genocídio dos semelhantes?
Haverá uma ponte de lógica entre as bibliotecas cheias de filosofia, ciência e arte, e o primarismo ainda reinante nas ruas e nos ambientes de trabalho e lazer?
Como entender que tenhamos milhares de séculos de devoção religiosa a numes tutelares e contabilizemos vinte mil guerras nos anais da história humana?
E apesar desses paradoxos e contrastes gritantes, a sociedade dos vestidos de carne vem avançando, de maneira assombrosa, em direção a glorioso porvir. Profecias e prognósticos otimistas nos dão a certeza de que esses entraves, de natureza ética e comportamental, serão superados. E somente uma ferramenta será capaz de nos arrancar do barbarismo que ainda impera em muitos corações, nos credenciando a um novo estágio de evolução na trajetória dos mundos: a educação.
Ainda identificados por planeta de provas e expiações, a inferioridade moral predomina na maior parte dos habitantes do orbe terrestre. Enquanto o cérebro se desenvolveu a passos de gigante, o coração sofreu a hipertrofia dos sentimentos, ante as ações cometidas pela tirania da empáfia e pelo orgulho desmedido.
Em quase toda a literatura disponível, com algumas exceções honrosas, encontramos o destaque para os guerreiros e cabos de guerra, os déspotas e tiranos, ovacionados pelas massas que procuraram se espelhar em tão infelizes condutas. O herói da abnegação, o servidor da humildade, o apóstolo da fé e arauto da ética, via de regra, somente tem reconhecimento muitos séculos depois de sua passagem pelo mundo.
Os nomes dos maiores césares da história romana são facilmente recordados quando o assunto se reporta ao pretérito próximo da civilização ocidental, mas nem sempre a alcunha dos mártires e dos imolados vem à baila, olvidados quase que por completo nos sacrifícios a que se entregaram em completa renúncia do mundo.
Certamente que a evolução da ética e da filosofia fará com que os registros históricos sejam revisados num futuro não muito distante, onde o destaque seja dado àqueles que se fizeram paradigmas da vida plena.
O cientista que se ocultou entre retortas e provetas para alcançar um elixir que libertasse a humanidade das epidemias.
O paladino da paz, que se valeu da diplomacia para costurar entre povos o tecido da cordialidade, diluindo as fronteiras da animosidade de raça.
O religioso que os holofotes não notaram, buscando o diálogo inter-religioso para construção de uma sociedade menos intolerante.
Em uma existência de quase 80 anos no corpo, a "zeladora dos orixás", Makota Valdina (seu nome de batismo era Valdina de Oliveira Pinto), recentemente desencarnada, atuou de maneira robusta e decidida para diminuir a intolerância religiosa contra os adeptos das religiões de matriz africana. Seja em memoráveis textos e artigos de jornal, onde expunha seu lúcido pensamento, ou em solenidades, fazendo uso da palavra, soube imprimir uma diretriz de nobreza e resiliência em favor de uma sociedade plural. Ora liberta da argamassa física, prossegue conclamando as almas alforriadas do carro orgânico e aquelas ainda reféns da armadura esquelética para o diálogo da paz, onde se busca a convivência sem anátema a quem pensa diferente.
Pairando acima de todos os vultos célebres da história universal, Jesus se ergue como a maior figura de todos os tempos.
Se o admiras, imita-O na convivência com teu irmão que pensa diferente de ti.
Aceita que tua cartilha serve para teu roteiro, não necessariamente se encaixando na concordância do outro.
Dialoga com os diferentes em clima de cordialidade.
Espalha a compreensão em teus contatos como quem edifica pontes e não muros.
Contrariado, aceita sem revolta que o outro não entendeu teu ponto de vista.
Constrangido por esse ou aquele fanatizado, sorri e compreende que dentro dele se encontra perdido o bom senso.
Ajuda-o a encontrá-lo.
E segue pelo mundo tranquilo e sereno, sabendo desde já que a verdade ainda não é patrimônio comum a todos.
Cada um possui a sua, em particular. Em Deus, reside aquela que estamos todos buscando.
Marta
Salvador, 04.04.2022



