Primavera de Marta - Mensagem do dia 20.01.2022
- Casa de Jesus

- 20 de jan. de 2022
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Segundo alguns demógrafos, o planeta possuía cerca de 1 bilhão de encarnados no início do século XX. Hoje, somos quase 8 bilhões de bocas, com necessidades variadas de satisfação.
Pão e vestuário, domicílio e emprego, lazer e transporte são exigências do cotidiano que não se pode abrir mão, a fim de bem atender ao ritmo alucinado da sobrevivência. Diariamente, bilhões de seres humanos saem de casa na busca do ganha-pão, a movimentar imensos esforços na aquisição dos insumos básicos da manutenção do corpo e da unidade familiar. Seja manejando a horta familiar ou utilizando-se de máquinas sofisticadas para arar o solo, em atendimento às exigências do mercado cada vez mais voraz, estão todos em busca de se manterem funcionais, amealhando valores com que possam fazer face ao consumismo do mundo moderno.
Essa estrutura é que move atualmente grande parte da sociedade, sendo chamada por muitos estudiosos de agronegócio, absorvendo fabulosa mão de obra e movimentando colossais somas de recursos financeiros.
Entretanto, conquanto necessária para garantia da sobrevivência dos corpos perecíveis, a alma que somos, no corpo que habitamos, reclama outras necessidades que o carboidrato não pode atender, nem o dinheiro pode adquirir.
Registra-se incontáveis indivíduos assaltados por síndromes variadas, reclamando atenção e terapia para se lhes devolver a serenidade perdida ou violada.
Outros, se vêem destrambelhados nas emoções pelo martelar constante da ansiedade, que vitimiza quase todos, tragados por essa volúpia que devora, de maneira implacável, a grande sociedade de nossos dias.
A depressão, qual flagelo invisível, chicoteia muitas consciências, impondo aflitivos quadros íntimos, a exigirem cuidados especializados e uso de medicação própria, a salvaguardarem muitas existências dos abismos que ela provoca.
Sem minuciar o pânico, a esquizofrenia, o medo e as angústias que torturam grandes fatias da sociedade terrestre, concluímos que alto tem sido o preço que estamos a pagar pelo viver e sobreviver nos dias correntes.
As queixas se multiplicam, onde muitos se declaram decepcionados com o estilo de vida, desejosos de mudanças que possam assegurar qualidade de relacionamento consigo e com o próximo. Ocorre que toda mudança exige esforços e nem todos estão dispostos a abrir mão do já conquistado. E enquanto as reformas de fundo e profundidade não são implementadas, o ser parece se enganar com maquiagens externas, buscando dourar a pílula em tentativas de mascarar a realidade que o aturde.
Ídolos de barro por toda parte, aclamados por seguidores fanáticos, mas carentes de afeto e despossuídos de amigos sinceros.
Ruidosas manifestações religiosas, templos abarrotados de mercadores da fé, mas nas almas um permanente vazio existencial e uma incerteza devastadora quanto ao futuro.
Dados econômicos em oscilação incontrolável, inquietando investidores ávidos por lucros que nunca bastam e por dentro a desertificação emocional, quase sempre anestesiada no álcool e nas drogas enlatadas.
Milhões buscando matar o tempo nas redes sociais, vasculhando vidas alheias à cata de material para lhes preencher as horas ociosas, em fuga inconsciente das próprias inquietações.
Até quando o ser se projetará, desavisado, para o mundo externo, relegando seus espaços íntimos ao abandono e ao descaso?
Muitos somente desaceleram quando irrompem em suas atribuladas existências o freio das amarguras ou o espinho do sofrimento. Outros, se veem expulsos do corpo em plena vitalidade, constrangidos pela morte ao regresso inesperado ao plano que negligenciaram estudar, aportando nas grandes praias do infinito como náufragos em desespero.
A cada hora cerca de quinze mil seres humanos retornam ao corpo passageiro, e nos mesmos sessenta minutos outros milhares recebem carta de despejo, demandando o grande além.
De onde vem tanta gente?
Para onde seguem os viajantes do comboio da morte?
Ó, meu amigo que ainda deambulas no castelo de ossos e cartilagens, tira de tuas horas alguns minutos para as inadiáveis reflexões sobre tua imortalidade! Não aguardes os instantes derradeiros do vaso orgânico em decadência para solicitar da vida aquilo que a vida te ofertou durante muitos anos.
Aproveita algum amanhecer silencioso ou te vale de um crepúsculo de fogo e mergulha em ti mesmo. Avalia tuas buscas e sopesa teus achados.
Anota teus haveres transitórios e desapega-te deles o quanto antes, em exercícios de renúncia a cada dia. Hoje ou amanhã, depois ou semana que vem, serás constrangido ao regresso ao grande lar.
Não te servirá muito teres. A contabilidade divina apenas vê quem tu és e o que fizeste do tesouro das horas.
Usa o estritamente necessário para tua sobrevivência, liberta-te do supérfluo e avança em tuas conquistas superiores, únicas credenciais com as quais abrirás as portas do infinito para teu acesso ao oceano de paz.
E se o mundo buscar te lançar grilhões, lembra-te de Jesus. Seja Ele teu hoje sereno e teu porvir das excelsas esperanças.
Marta
Salvador, 20.01.2022



