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Primavera de Marta - Mensagem do dia 01.04.2022



As disparidades do mundo parecem conspirar permanentemente contra os ideais do bem. Quando num período se anunciam as blandícias da paz, logo surge o dragão da guerra, acionando canhões e vomitando destruição e luto sobre a morada dos homens.


Em meio à calmaria, prenúncio de dias venturosos, a violência e a enfermidade aparecem, sorrateiras, arruinando a esperança e tornando amargo os anos.


No instante em que sonhos de felicidade a dois se nos afigura como dádiva perenal, a desconfiança se instala qual salteador barato, intoxicando a amizade e turvando as águas de substâncias amargas.


Ainda persiste em muitos corações a ideia santa e pura de que a Terra se constitua num oásis de delícias e prazeres infindos, até que arrebentam os dias dolorosos, onde os seres são chamados aos testemunhos da fé e aos experimentos da fidelidade.


Nos dias áureos do cristianismo nascente, quando as primeiras perseguições se fizeram implacáveis aos mártires e servidores fiéis, estes localizaram no trabalho e na confiança irrestrita em Deus as colunas onde se sustentaram em meio à tormenta de césares odiosos e psicopatas.


Os anos avançavam e os espetáculos de dor e morte se multiplicaram nos circos e nas arenas, onde as feras trituravam ossos de indefesos cristãos. E quanto mais o martirológio se aprofundava, mais unidos eles se faziam, regando com lágrimas e suores o terreno onde fecundava a mensagem de Jesus.


Assim que as liberdades religiosas, fixadas por Justiniano e Teodósio, se fizeram ecoar no império romano em decadência, os catecúmenos se fizeram de perseguidos a perseguidores, erguendo anátema a quem pensasse diferente, ostracismo e banimento a opositores, e um período de sombras tomou conta da marcha religiosa dos povos.


A fé inquebrantável de mártires e vultos de escol manteve a débil chama da fé acesa, clareando as rotas de muitos que se encontravam perdidos.


Os tempos novos, bafejados pelas amplas liberdades religiosas, pela proteção legal aos cultos, nem de longe se assemelham aos séculos de inomináveis perseguição aos cristãos de outrora.


Entretanto, se a tutela do Estado hoje assegura liberdade de crença e campo seguro para manifestação de ideologias as mais diversas, em muitos, a fibra da fidelidade esfriou, a fé se fez crença sem estofo e a confiança tornou-se líquida, sempre agitada pelos reveses da vida.


Enquanto a sorte sorri, o indivíduo se faz adepto, admirador da vida cristã. Em surgindo os tempos difíceis, torna-se amargo e rancoroso, como se tivesse firmado com Deus um pacto de mutualidade, onde o esforço mínimo nas estradas terrestres devesse receber o máximo de reverência da Misericórdia Divina.


Escambista espiritual, acredita estar prestando um serviço ao Pai, ansiando ser por ele remunerado nas tormentas do mundo.


Em qualquer circunstância onde atua, exalta a bondade de Deus, se confiando à desesperação. Caminha para o céu, sinalizando o inferno para desafetos e opositores. Profere uma oração num minuto e no instante seguinte projeta dos lábios injuriosa maldição.


O que a mão direita oferta, a esquerda anota para posterior cobrança dos assistidos.


Esse ainda é um quadro inquietante que persiste nas fileiras da doutrina do crucificado entre ladrões. Sua mensagem ecoa de polo a polo, arrancando lágrimas de emoção de muitos, nem sempre tocando o coração.


Quando o ser se deixa penetrar pela essência profunda das diretrizes do Incansável Jardineiro, tudo se lhe renova na vida.


Ídolos de barro são deixados à margem da estrada ascensional, a Terra se lhe afigura uma arena de lutas evolutivas e o sofrimento se converte em buril das imperfeições da alma.


Descrucificando o Embaixador de Deus, o discípulo se dá e se doa integralmente à mensagem abraçada, acolhendo dores por bênçãos e dificuldades como testes à capacidade de superação.


Tem metas existenciais dificilmente compreensíveis pelos demais.


Se faz cireneu de muitas vidas arruinadas.


Exalta o encanto da flor, sem desconhecer a agressividade do espinho.


Cada manhã, nova oportunidade de lutas.


Cada noite, pausa para reanimar os ideais e renovar a esperança.


Porque incompreendido, não te faças amargo.


Caluniado, prossegue servindo e entrega tua defesa nas mãos do rábula de Deus.


Alvejado pelas costas, prossegue para a frente, mesmo sangrando.


E quando te pareça que o mundo converteu tua marcha em calvário, onde teu madeiro pareça insuportável, lembra-te D'Ele.


Não tão longe, mãos diáfanas te aguardam nos portais da vida maior, te ofertando descanso para as fadigas e abraços demorados, onde saudades e dores, amarguras e lutas sejam convertidos em troféus de tua passagem pelos áridos caminhos do mundo.


Terás triunfado sobre ti mesmo.


Marta

Salvador, 01.04.2022

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