Por que Deus não suprime, num estalar de dedos divinos, as mazelas do mundo? Tudo podendo, mente criadora e criativa, se o desejasse, poderia acalmar as tempestades destruidoras, silenciar canhões, converter hereges e tornar a existência humana uma perene primavera.
Se tudo isso pode Deus, porque não o faz?
Em meio às lutas titânicas pelo pão de cada dia, no torvelinho das paixões e dos atritos difíceis da convivência humana, eis que uma intervenção divina tudo colocaria nos eixos, dificuldades seriam rapidamente superadas e os entrechoques cessariam no todo, fazendo da vida na Terra um paraíso.
Sonho meu, sonho seu.
Sonho nosso.
E se a cultura pudesse ser adquirida por osmose, que finalidade teriam as escolas e os mestres, em contínuo desgaste entre livros e cadernos?
Se a Providência Divina suprimisse as enfermidades que hoje castigam o dorso da humanidade, que estímulo teríamos para abertura de laboratórios e centros de pesquisas avançadas, onde a microbiologia se debruça continuamente sobre o mundo infinitamente pequeno, tentando desvendar seus segredos?
Se o Senhor dos mundos nos transportasse para mundos distantes e nos fizesse atravessar galáxias em décimos de segundos, com que interesse nos ocuparíamos de foguetes e satélites, sondas não tripuladas e telescópios de assombrosa precisão?
Chegamos a uma dolorosa e inquietante conclusão: se Deus pode e não quer fazer, não é bom; se Deus quer fazer tudo isso e não pode, não é Deus!
Desde o surgimento da Teologia, inúmeras teorias sobre o Divino Poder Criador foram postas em papiros, alfarrábios e livros consagrados, mas o homem optou pela inércia em se divinizar, se ajustando ao comodismo de humanizar a Divindade. Os deuses do Olimpo possuíam ira, agressividade, paixões e arrastamentos tipicamente humanos. Quando conseguimos sutilizar a percepção do Divino, escoimando de nossa precária percepção esse senso oportunista, Deus se fez uma ideia abstrata, um psiquismo superior, uma causa incausada, incriada.
O legado do Judaísmo em torno do monoteísmo ajudou a varrer Zeus e sua corte de deuses irados e deusas ciumentas para os porões da mitologia e nada mais. O refinamento da percepção da vida foi e está nos credenciando para a compreensão que a Suprema Inteligência é realmente suprema.
Estabeleceu leis eternas e inderrogáveis, vigentes em cada mundo de acordo com a percepção de seus habitantes. Cada ser senciente O percebe conforme seu nível evolutivo.
O bruto o teme no trovão e na faísca devastadora do relâmpago. Mais lúcido e aculturado, o reverencia nos templos de pedra e mármore, erguendo-lhe estátuas e esculturas primorosas.. Evoluindo, o concebe como um moto-contínuo, um lampejo criador, que se apresenta no verme que rasteja e se reflete na galáxia que se estende no infinito.
Para o poeta, Deus é um verso.
Para o músico, um acorde.
Para o esteta, um poente de fogo ou um amanhecer sob o clarão do sol.
Para o orante, Deus é um silêncio eloquente.
Suas Leis não preconizam castigo ao rico avarento ou fortuna sem esforço ao mendigo. Seus Divinos Códigos prevêem consequências, reações, que se dão no tempo e no espaço, sempre de acordo com a energia mobilizada na ação ou na inércia.
A intenção supera o fato.
A motivação vale mais do que o acontecimento em si.
Presentemente, em atravessando difíceis caminhos no mundo, tens sentido um forte abalo em tuas crenças. Novos deuses surgiram no mundo.
O deus dinheiro. A deusa do sexo fácil, sem compromisso. Os deuses da tecnologia, os mitos do cinema, as rainhas da TV.
Sim, surgem e passam como a neblina da manhã, diluída pelo vigor dos primeiros raios de sol.
Anseias pela modificação compulsória do outro, que te agride o ideal. Desejas que a intervenção divina se dê a facão, removendo de terceiros essa intolerância para contigo.
Que teus adversários caiam de teu lado, porque a espada do Excelso te protege a caminhada.
Curiosamente, teus supostos inimigos estão pensando a mesma coisa. Eles também cogitam tua transformação para que deixes de ser um óbice nas vidas de cada um deles.
O time A entrou em campo e pediu a Deus a vitória.
O time B saiu do vestiário para o gramado e fez o mesmo pedido.
Esse final ambos já sabemos antecipadamente: empate.
Deus não joga contra Ele mesmo!
Se ainda te fustiga alguma inquietação em derredor da intervenção divina nos destinos da criatura humana, obra-prima de Deus, recorda Jesus pronunciando a comovente súplica:
- Pai, não te peço que os tire do mundo, mas que os livres do mal!
Amém!
Marta
Salvador, 04.08.2022