Primavera de Marta - Mensagem do dia 12.04.2022
- Casa de Jesus

- 12 de abr. de 2022
- 3 min de leitura

Diariamente, travas contato com inúmeras vidas que permeiam a tua. Surgindo do círculo da família ou desconhecidos da via pública, estás em permanente contato com outrem.
A atual vida comunitária já não permite a solidão dos anacoretas, do ermitão do pretérito medieval ou do sábio que optava pelo refúgio para as graves meditações.
Estamos de tal forma conectados uns aos outros que dificilmente temos direito a estar conosco mesmos. E em meio a esse incessante intercâmbio, nem sempre tuas dores, amarguras e aflições merecerão do outro o trato devido.
Como acolher tua ferida, se quase todos estão machucados dessa ou daquela forma?
Quem terá dez minutos para te escutar as queixas, se a mole humana está hoje constituída de queixosos de toda espécie?
Crises conjugais situam os matrimônios na corda bamba, e os cônjuges nem sempre sabem a quem recorrer para buscar ajuda.
Pais alimentam e vestem filhos indóceis e recalcitrantes na rebeldia, sedentos por uma orientação que os liberte do duro fardo.
Sacerdotes e religiosos ouvem confissões de arrepiar, ignorando o confessante que diante deles jaz uma pessoa igualmente portadora de necessidades múltiplas, buscando ajuda de igual maneira.
E tua necessidade íntima sai da cama para o trabalho, regressando à noite contigo intocada, sem que tenhas encontrado um ouvido amigo com que possas compartilhar essa ou aquela confidência.
Sem que tu mesmo possas perceber, vais te tornando uma pessoa também indiferente para com as crises e os problemas alheios, não porque queiras, mas porque teus dramas passam a te sufocar, qual represa no limite das águas acolhidas, com as comportas fechadas.
Para onde ir?
Com quem desabafar?
Em que ombro chorar?
Momento delicado e grave vive a atual sociedade terrestre. Impossível esconder debaixo do tapete a colossal montanha de angústias e amarguras com que se vê à volta os homens e mulheres de nosso tempo. Apesar de cercado de artefatos tecnológicos que muito facilitam o intercâmbio e as comunicações ligeiras, padece o ser da crise existencial de valores, onde a verborragia ceifou o silêncio terapêutico e o excessivo volume de informações no enquadro virtual tem ocasionado um aturdimento sem igual nas almas, cada dia mais inquietas.
A ânsia de saber tudo sobre o outro, ignorando a si mesmo.
Acompanhar e estar em múltiplos lugares, desprezando onde fincou raízes.
Estar incessantemente bem informado sobre moda e mídia, sem perceber que dentro das quatros paredes do lar uma parceira se ressente da solidão conjugal e um filho se percebe órfão de pais vivos.
A ditadura imposta pelo modelo acadêmico de galgar cursos e títulos, um atrás do outro, onde se estuda até ser vencido pela estafa e devorado pela ansiedade.
O sonho de consumo corroendo tantas vidas.
Quem prestará atenção aos teus clamores?
Quem estugará os próprios passos para te prestar essa ou aquela informação?
Não seja de estranhar, pois, que periodicamente, surjam nas vidas apressadas situações inesperadas, obrigando cada um a rever metas e objetivos existenciais.
Enfermidades que travam o carro da loucura pelo possuir.
Abandono de quem fingia nos amar, nos convidando ao autoamor.
Acidentes e tragédias conosco ou com seres amados, nos impondo desaceleração da insana corrida pelo ouro terrestre, nos colocando ao lado de uma enfermaria para assistir o acamado.
O olhar de um cão que parece suplicar pelo passeio no parque.
Se realmente tens apreço pela vida, não te furtes de refletir sobre tuas inquietações, aquelas de que foges, qual alma penada, arrastando pesados grilhões na noite escura das tuas experiências.
Lembra-te de viver.
Consome o carboidrato e a proteína, degusta esse ou aquele acepipe posto na mesa farta, mas não negue a ti mesmo o alimento espiritual.
O mundo não enxergou tuas misérias e carências. Estamos quase todos caolhos para com as dores alheias, portando lepromas de difícil diagnóstico.
Quase sempre, se tens algum equilíbrio, serás procurado por esse ou aquele peregrino, te rogando uma informação ligeira ou cinco minutos de teu tempo, ali desfiando mínima parte das dores que os consome.
Sem querer, serás terapeuta de muitas vidas.
Conselheiro de outras tantas.
Alguns te tomarão por guru, te atribuindo uma sabedoria que sabes não possuir.
Entre o riso e a lágrima, opta pelo primeiro quando te procurarem. Já temos pranto demais nessa Terra de contrastes e incoerência. E quando a noite te impuser solidão, alça teu pensamento ao mais alto e recorda Jesus, que de Belém de Judá ao calvário atravessou as trilhas ásperas do mundo, orientando e consolando, não encontrando na sexta feira de Suas dores supremas quem O consolasse.
Ele com Deus estava e a Deus entregou a alma nos supremos testemunhos.
Mesmo te faltando credenciais, sê um bom ouvinte para tantos aflitos e desenganados. Pensando feridas alheias, o tempo, ferramenta com que Deus nos aperfeiçoa, cicatrizará as tuas, te descerrando vida nova sem que tu possas perceber.
Marta
Salvador, 12.04.2022



