top of page

Primavera de Marta - Mensagem do dia 14.12.2022



Na ânsia pela felicidade, homens e mulheres não vacilam, muitas vezes no curso da vida, em buscar em casamentos apressados a ventura tão desejada.


Pouco ou quase nada conhecendo do outro, entregam-se aos ditames da afetividade mais ardente e, obtida a compensação química que suaviza as tensões habituais, guarda-se a íntima certeza de que o escolhido ou a eleita é a banda da laranja que faltava.


Entretanto, será na convivência mais demorada entre as quatro paredes que as aparências se desfazem, máscaras de ocasião são retiradas e os indivíduos tem necessidade de se revelarem realmente como são.


Ao lado das virtudes, surgem os defeitos.

Cavalheirismo de ontem é substituído pela grosseria de daqui a pouco.


Os longos diálogos e os toques de afeto vão sendo deixados de lado, usurpados por frases ligeiras, indiferença, secura de trato.


Variando de caso para caso, surge um momento em que a vinculação torna-se uma prisão, um fardo, e o ser que se sente enjaulado começa a articular fuga da gaiola onde entrou sorrindo.


No dizer jocoso de um compositor brasileiro, o casamento se assemelha muito a uma fortaleza. Quem está de fora vive louco para entrar. Quem já entrou, está ansioso para sair.


Sem anuir a essa consideração de natureza caricaturada, o vínculo entre dois seres, atualmente dilatado para além da organização tradicional homem-mulher, precisa ser visto na sua finalidade evolutiva, onde suas paredes e seus aposentos não podem ser erguidos tão somente sobre as treliças frágeis dos neurotransmissores da libido e do capricho do colágeno.


Bíceps longamente esculpidos em caras academias não são garantia de uma convivência saudável e enriquecedora para as parcerias envolvidas na união a dois. Onde a argamassa física surge por único ingrediente de fusão entre parceiros que mal se conhecem, o escândalo e a amargura estão logo depois da esquina.


As decepções no campo do caráter. As fugas aos deveres livremente assumidos. A busca por outras parcerias, onde o triângulo de interesses acaba por fulminar o que ainda restava de respeito entre os cônjuges.


Em tempos de relacionamentos líquidos, superficiais, a imaturidade de um ou de ambos responde por incontáveis soçobros da vida conjugal, muitas vezes onde a expectativa não era se posso fazer o outro feliz, mas passa a residir, equivocadamente, na exigência de que o outro me faça venturosa. Ninguém tem a possibilidade de nos fazer felizes ou desventurados. Somente nós mesmos, pela conduta adotada na vida, somos os responsáveis diretos de nossa felicidade ou não. Entregar a chave de nosso mundo íntimo a desconhecidos ou transitórios conhecidos da estrada é receita certa para grandes machucados no campo dos sentimentos. E se autorizo que o outro furte minha paz, assalte minha alegria e me cause um terremoto nas emoções, estou abdicando de mim mesma, terceirizando a felicidade, sinal inequívoco de que pouco amadureci para a vida.


Deveria ser mais demorado o convívio com alguém que nos comove o coração, permitindo que diálogos e permutas pudessem melhor desvelar o ser que se uniu aos nossos propósitos de construção da constelação familiar. Precisamos melhor conhecer o outro, facultando que o outro igualmente nos conheça.


Quando os monossílabos começam a vigorar entre parceiros, o semáforo da caminhada sai do verde e estagia no amarelo, a caminho da lâmpada rubra.


Numa sociedade de oito bilhões de habitantes, os interesses nesse campo flutuam ao infinito, cada um carregando suas expectativas e sonhos. Qualquer padronização é utopia completa.


Este, sonha com uma rainha entre quatro paredes, mas constata que a eleita é pessoa simples, muito longe de carregar uma tiara entre os cabelos ou possuir sangue azul. Ela, imagina o príncipe dos contos do passado, mas cedo verifica que o Adão não possui desfalque de costelas e nem estagia no paraíso.


Somos todos criaturas falíveis, transportando conosco sombra e luz, acerto e desajuste, caprichos e virtudes.


Quando o sentimento não controla as paixões e a casca passa a ser mais valorizada que a polpa da fruta, não raro o comboio das uniões afetivas derrapa nas estradas difíceis da convivência a dois, ocasionando graves acidentes para um ou para ambos.


Em pretérito não muito distante, se falava muito em cursos para casais e enamorados, noivos e afins, onde se ministravam ensinos e se trocavam impressões sobre o futuro da família em construção. Bons tempos...


A dinâmica urbana, a pressa, a ansiedade por sorver o vinho do prazer conduziram homens e mulheres a um patamar delicado, onde o tecido da vida conjugal está cada instante mais frágil, rasgando com imensa facilidade.


A linha do diálogo iluminativo está muito desvalorizada e a agulha utilizada perdeu a direção da boa costura.


Não seja de estranhar tenha Jesus começado Seu messianato pelas bodas conjugais de Caná. Renteou muita vezes com mulheres sofridas e amarguradas por matrimônios infelizes. Orientou a equivocada de Magdala, sedenta por um lar que lhe acalmasse as labaredas íntimas. Iluminou a consorte de Cusa, prisioneira de um casamento frustrante. Dialogou com a mulher sirio-fenícia no poço, revelando estar ela no quinto matrimônio, sem a fruição da felicidade.


Se presentemente atravessas tua noite escura da alma, evita tomar atitudes impensadas ou precipitadas.


Ora e acalma esse vulcão que te atormenta a intimidade.


Busca uma página esclarecedora.

Aconselha-te com alguém mais experiente ou credor de tua confiança.


Pensa nos sócios mirins da família antes de decisões açodadas.


Feridas emocionais são infinitamente mais dolorosas do que as de natureza física, e deixam marcas que perduram por tempo indefinível.


Será na plataforma da compreensão, nas vigorosas hastes do perdão e no escutar o outro que encontrarás caminhos onde o mundo não tem estradas.


Preserva-te dos escândalos, já tão comuns na atual sociedade, prosseguindo fiel à tua consciência. É dentro dela que estão esculpidas as leis de Deus.


Do outro, podes te afastar, nunca de ti mesmo!


Marta

Salvador, 14.12.2022

Posts recentes

Ver tudo

Comments


bottom of page