Numa época de tantos meios de comunicação, a tagarelice e o julgamento leviano evidenciam ausência de equilíbrio e de dignidade da parte de muitos.
Quanto mais avançam os mecanismos legais, que asseguram a plena liberdade do indivíduo para expor seus direitos violados, mais se expande o comportamento daqueles que se fazem vozes da insurreição e do confronto, ameaçando o delicado tecido social de rupturas imprevisíveis. A verborragia, bem trabalhada por aqueles que ambicionam postos de comando na política do mundo, pode gerar males incontáveis, quando situa na gestão da coisa pública indivíduos destituídos de princípios morais. A facúndia direcionada para interesses rasteiros fez de déspotas contemporâneos lideranças que mergulharam povos na guerra, estabelecendo enormes prejuízos à coletividade.
E quando cada um emite juízo de valor sobre pessoas e acontecimentos, dos quais ignora intenções e razões para suas ações ou omissões, temos instalado na sociedade uma massa de julgadores arbitrários e inconsequentes, gerando inquietação e pânico nos atingidos pelos vereditos infelizes.
Em quase todas as civilizações do Ocidente, a tarefa de julgar foi atribuída aos anciãos, que dispunham, conforme a cultura de cada povo, melhores condições de formarem um corpo de juristas e magistrados com competência de serena análise das questões de justiça. Hamurabi, na Babilônia, e o rei Salomão, filho de Davi, cada um a seu tempo, foram considerados grandes julgadores, firmando suas sentenças em cima dos códigos de justiça então existentes.
O comentário desabrido e leviano é causador de muitos males, gerando perturbação nos ouvintes menos afetos à ponderação. E quando línguas ferinas deixam vazar suas sentenças pessoais, os ouvintes intoxicados podem tomar aqueles ditos como verdades imbatíveis.
Importa redobrar o cuidado na manipulação da língua, na exteriorização de julgamentos e na tagarelice sem freios.
O dom da palavra pode muito em seus efeitos.
Uma frase bem colocada estabelece o otimismo. Um pensamento nobre ilumina muitas estradas em obscuridade. Um conselho ponderado pode desviar o equivocado de grandes disparates na vida.
No instante em que somos assaltados pelas paixões e nos permitimos julgar pessoas e acontecimentos, sem conhecer as particularidades das mesmas, incorremos em grave perigo de estarmos profundamente equivocados sobre os protagonistas, adentrando o pantanoso terreno da injúria e da calúnia.
Os tempos modernos parecem produzir juízes e preletores em cada esquina. Assertivas temerárias são construídas em tempo apressado, sem permitir que fatos ignorados venham a campo, se contrapondo à tagarelice de ocasião, própria de levianos e pessoas imaturas.
Jesus foi alvo, por muitas vezes, de impressões equivocadas daqueles que O seguiam, quais sentinelas de Sua atuação no meio do povo. Em certo momento, indagou Ele do colegiado:
- Quem diz o povo ser o Filho do Homem? E eles responderam, conforme anotações de Mateus, 16;13:
- uns dizem João Batista, outros Elias, e outros Jeremias ou algum dos profetas.
- Mas vós, quem dizeis que eu sou?
É quando Pedro, tocado de claridades superiores, afirma a plenos pulmões:
- Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo!
Chamado a opinar, vigia tuas fontes íntimas.
Pressionado a analisar essa ou aquela conduta, busca ver o lado bom da pessoa em discussão.
Desconhecendo fatos e circunstâncias, escolhe a cautela ou o silêncio, evitando espalhar o morbo da desconfiança entre os que estejam a te escutar.
Serás, hoje ou amanhã, sempre senhor de teu silêncio, mas quando te permites o verbo sem dignidade ou a frase irrefletida, ficarás sempre vassalo da palavra exaltada e infeliz, gerando incontáveis ocorrências pelas quais responderá perante a Divina Consciência.
Age com nobreza, fala edificando, pensa com retidão e não te arrependerás em tempo algum.
Marta
Salvador, 16.11.2021
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