top of page

Primavera de Marta - Mensagem do dia 18.05.2022



Tanto quanto as sociedades sofrem periódicas revoluções, a individualidade possui períodos que lhe são tempos de testemunhos e provações. Surgem de imprevisto ou vão se aglomerando ao redor do indivíduo como sombrias nuvens de chuva ácida, desabando como nervosas torrentes o caudaloso volume das salgadas lágrimas das dores inimagináveis.


Perda de entes queridos, miséria material súbita, enfermidades cruéis e dilaceradoras, vazio existencial e solidão se juntam em conluio aterrador, ceifando a esperança e fazendo tudo em derredor parecer não ter sentido.


O facão do destino parece descer, impiedoso, sobre os galhos tenros da árvore vetusta, impondo-lhe a poda de ramos estéreis e gravetos diversos.


Somos constrangidos pelas circunstâncias a ressignificar a própria caminhada, acelerando conquistas menosprezadas ou nos libertando de velhas ilusões, como quem deixa na estrada certos fardos inúteis na grande viagem pelos insondáveis caminhos da evolução.


Quando atingida por essas ocorrências cíclicas, sazonais, a sociedade estertora e se agita, abandonando sistemas políticos obsoletos, revendo códigos de leis ultrapassados e se adiantando no progresso a que estamos todos fadados, mas quando a dureza da existência cai sobre nossos mais caros sonhos, parece-nos que a razão de viver se esvaiu num pântano de tristezas e desencanto.


Alguns duvidam da existência de Deus. Outros, optam pelas fugas espetaculares do corpo. Mais alguns, internam-se na alienação dos sentidos, buscando o anestésico das drogas aditivas para não se afogarem nas próprias lágrimas.


Teria Deus se esquecido da misericórdia para com seus filhos? Qual a intenção da Divindade ao impor a certos caminheiros veredas ásperas e trilhas tortuosas?


Nesse momento, as religiões parecem desertos de possibilidades. Sacerdotes não conseguem inocular nas veias e artérias do devoto em crise uma gota de esperança. Qualquer página de elevado teor moral torna-se intragável ao sentimento em superlativa aflição. Desejaríamos fugir do mundo, desligando o botão das ocorrências malsãs.


E quanto mais se ora, mais assombração aparece, reafirma o curioso ditado popular.


Alguns atingem seus limites.


Ultrapassados, deliram em febre alta de agonias e revolta. Outros, deixam-se avassalar pela lassidão das forças, rogando em muda desesperação que a morte lhes arrebate a alma para ingresso no nada, no não existir.


Ninguém que esteja isento do tempo da aferição de valores. Pessoa alguma blindada contra as ocorrências contrárias aos próprios desejos.


Em um planeta ainda profundamente assinalado pelas pungentes expiações, pelas provas dolorosíssimas, Espírito algum se furtará de atravessar o campo das lapidações indispensáveis.


A questão crucial não será saber quando a tempestade chega e que estragos produzirá, mas sim se estamos preparados para ela e com que intenção ela vem.


Que lição deixa nos atingidos?


De que zona de conforto nos arranca e para onde nos projeta?


Como nos encontra, que áreas íntimas solavanca e para onde nos atira?


Quando o ser dulcifica os sentimentos e recebe a borrasca com otimismo e bom ânimo, ela costuma doer menos. Almas inflexíveis, gênios fortes, comportamentos irascíveis, estruturas morais puritanas costumam experimentar graves desbastes da vegetação rasteira que cultivam nas terras íntimas, as preparando para novas sementeiras do porvir. Quem acolhe a dor como mensageira da renovação e da experiência, costuma sofrer com maior resignação.


Toda a doutrina de Jesus é um poema de exaltação à vida, ao crescimento moral e ao aperfeiçoamento incessante. Nenhuma apologia ao sofrimento sem sentido evolutivo. Nenhuma negação da realidade existencial, mas incessante renovação das paisagens e da ótica com que se enxerga a passagem pela escola terrestre.


Teus infortúnios não estão na planilha do acaso. Tuas amarguras não são frutos espúrios do capricho divino. O Excelso Amor não privilegia uns poucos, fazendo descer sobre as massas o chicote das provações sem finalidades educativas.


Tudo tem um sentido, mesmo que desconheças.


És um peregrino de insondáveis caminhadas.


Viveste um ontem de semeaduras, tens um hoje de resultados, avançando para um amanhã de reações, a depender do agora e do pretérito que ficou a solver.


Arrima-te, confiante, na bondade divina.


Enquanto caminha, serve e perdoa.


Em rudes experimentos, auxilia outros em mais difíceis provações.


Chamado a falar, distende o verbo consolador.


Constrangido ao silêncio, ora em favor de todos.


Da pátria invisível aos teus sentidos materiais, amigos devotados, familiares de outrora, benfeitores e guias te seguem os passos com ternura e compaixão.


Te dão as mãos na hora da queda.


Consolam tuas feridas.


E se fazem êmulos para que prossigas um pouco mais, deixando nas escuras vielas do mundo tuas sandálias gastas no muito servir, galgando em desconhecido triunfo a vitória sobre ti mesmo.


E se o mundo não tiver um só verbete de esperança para teus instantes de sofrimento, lembra-te D'Ele.


Com Ele, vencerás!


Marta

Salvador, 18.05.2022

Posts recentes

Ver tudo

Comments


bottom of page