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Primavera de Marta - Mensagem do dia 19.01.2022



Periodicamente, sem qualquer aviso prévio, a vida nos presenteia com a visita do sofrimento. Surge ele de maneira inesperada, fulminando períodos de bonança e nos sacudindo da zona de conforto. E, como é muito comum, ficamos a indagar o porquê da premiação indevida.


Em julgamento de si mesmos, nos colocamos na posição de cumpridores dos deveres, pessoas que não lançam anátema a outrem e ainda nos inscrevemos entre os fazedores de alguma caridade para com os mais vulneráveis. Qual a razão porque a dor veio bater à nossa porta, muitas vezes seguida de seu séquito de testemunhos difíceis e da água vinagrosa das provações.


Sidarta Gautama já assegurava em seu tempo, na Índia pré-cristã, que o sofrimento é paisagem inerente a todas as criaturas, não existindo pessoas blindadas contra suas ocorrências. Do novo ao velho, do homem à mulher, sadio ou enfermo, cada um tem sua cota de dor para carregar no exílio terrestre.


Nosso passado espiritual responde pela maioria de nossos infortúnios presentes, sendo o eco de nossas ações pretéritas, a se darem na atualidade como efeito nocivo das atitudes impensadas do ontem.


Dramas de família surgem como possibilidades de reencontro de almas que se agrediram em outros tempos, buscando agora a legítima afeição, a substituir algemas de ódio e intriga.


Pais negligentes e irmãos carrascos retornam ao nosso lado, quais agentes alfandegários, reclamando em dores e amarguras o resgate nosso de certas dívidas de afeto, contraídas em momentos de insensatez e loucura. Antigos adversários se materializam no lar, à feição de algozes e verdugos implacáveis, cobrando-nos, pelo tributo das lágrimas e das aflições contínuas, o refazimento da atmosfera de paz que lhes tisnamos, outrora.


E de luta em luta, nos entrechoques da parentela difícil, vamos reencontrando vestidos de nova moldura física afetos e desafetos de dias transatos, tecendo na muda conformação, novos liames de afeto que possam substituir os escuros fios da animosidade e da aversão a parentes, situados pela Divindade debaixo do mesmo teto para reajuste e reaproximação.


Sem amparo na pluralidade das existências, o cadinho doméstico seria um estranho paiol de pólvora seca, onde cada um, estranho ao outro, teceria suas armas em palitos de fósforo aceso, incendiando e explodindo de uma hora para outra a constelação familiar.


O acaso nada preside nem edifica, sendo simples verbete, destacado do dicionário, para reafirmar coisa nenhuma. Sutis mecanismos das ligações afetivas interconectam todas as criaturas nos dramas da evolução, fazendo com que ações de ontem repercutam agora, amores se reencontrem para apertar laços e criarem construções de ternura, mas igualmente permite e autoriza que adversários e inimigos, nutridos no mesmo caldo pestífero da irritação e das disputas estéreis, se reencontrem na intimidade das quatro paredes do lar, buscando lapidar arestas, tecer zonas de paz e forjarem laços de amizade, até que o amor lhes possa abençoar, em definitivo, a ascese para mais dilatados planos da vida.


Ninguém sob o jogo da casualidade, e sim submetido à revivescência da causalidade edificada em pretérito próximo ou remoto.


Atravessando rudes labores no palco das uniões afetivas infelizes, dilata teu entendimento e perceberás que o outro, agressor ou agredido, é alguém teu conhecido, que retorna ao teu convívio para refinar alguma experiência fracassada ou mal vivida.


Esse filho que te machuca as carnes da alma veio buscar o que sonegastes.


Aquele companheiro irascível e despótico, muito provavelmente, seja o amante a quem prometeste um paraíso feito de ilusão, logo após o atirando na charneca da podridão moral.


Essa mãe castradora e autoritária é alguém do ontem, renegada e espezinhada, hoje transmutada em implacável fiscal de teus atos dentro da praia estreita do lar.


Velhos atores, novo teatro.


Todos situados pela vida na mesma coxia para releitura dos textos abandonados, rumando para o tablado das experiências comuns, onde cada um poderá fazer um novo personagem, sendo a mesma individualidade, agregando luz ou treva, sabedoria ou inconsciência ao script em suas mãos.


Não te desanimes nas lutas intestinas da família.


Busca ajudar quem te desconsidera no jogo passageiro da parentela.


Serve, sem buscar reconhecimento de teus melhores gestos.


Não aguardes gratidão por algum favor prestado a esse ou aquele parente próximo. É muito provável que estejas apenas em regime de devolução do que usurpaste outrora. E entre silêncios e lágrimas, preces e confiança, avança até rompimento dos grilhões tecidos no despautério de outrora, te alforriando das injunções difíceis para os vastos horizontes da família universal, que te aguarda além da linha estreita da consanguinidade orgânica.


Ali, entenderás que nunca fostes vítima do acaso, apenas resgatando o que devias a outras inteligências, ora se convertendo em anjo tutelar dos corações com que dividiste as experiências evolutivas nos insondáveis caminhos da Terra.


Marta

Salvador, 19.01.2022

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