Primavera de Marta - Mensagem do dia 21.04.2022
- Casa de Jesus

- 21 de abr. de 2022
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Desde as eras mais primitivas até os tempos modernos, a arte acompanhou a trajetória humana com invejável fidelidade.
Mesmo quando a brutalidade exercia predomínio quase que absoluto no homem das cavernas ou da palafita tosca, algum tipo de arte fazia parte de sua rotina.
Caçando, diferenciava as presas pelo som que estas emitiam. Pescando, não se furtava de ouvir o som da chuva despencando sobre o espelho líquido. Em plena floresta bravia, coletando raízes e frutos selvagens, anotava na acústica rude o trinado de pássaros variados.
Se valendo de ossos longos, como a tíbia ou o perônio de inimigos abatidos em confronto, os esvaziou da substância interna e situando furos ao longo do mesmo, improvisou as primeiras flautas, de onde obteve os primórdios da música tribal. Avançou para a utilização de chifres de pequenos mamíferos (shofar), confeccionando uma espécie de berrante primitivo que despertava da letargia os guerreiros. Deles, deriva a trombeta, muito comum em povos do mediterrâneo como aviso de invasão inimiga ou convocação para a guerra.
Ainda hoje a corneta, quando tocada diante da tropa, desperta sentimentos de fidelidade ao ideal militar e silencia os aquartelados.
As tomando por analogia, podemos refletir que a arte musical sempre foi uma inspiração divina, naturalmente adaptada ao nível evolutivo das criaturas humanas.
Dos sons tribais do pretérito ao orquestramento sinfônico da atualidade, vai uma diferença descomunal. O estabelecimento das sete notas musicais, a elaboração e o aperfeiçoamento de instrumentos de sopro, percussão e cordas fez a arte dar um salto quântico, refinando a música conforme a época e a cultura de cada povo.
Certamente que muitos estranharão a música psicodélica dos tempos presentes, as discotecas alienantes, as baladas e os festivais de estação, bem como a musicalidade carnavalesca como sendo verdadeiro retrocesso no campo da arte musical.
Cada alma estagia num nível evolutivo que lhe é próprio, e naquele momento essa ou aquela expressão musical não lhe apetece os sentidos. Surgem as preferências, como é natural, e cada um buscará situar o coração onde residem seus tesouros.
Importante é não agredir o outro, impondo audição daquilo que nos agrada, violentando a acústica alheia, e esse tipo de comportamento tem sido uma constante nos tempos tumultuados que estamos atravessando.
Onde o respeito às individualidades não impera, surge a tirania sob diversos disfarces.
A imposição de alguma cultura ou conduta importa em turbação da liberdade alheia, e isso viola a lei de sociedade e de progresso.
Nem todos os ouvidos estão aptos ao canto gregoriano ou sensíveis à música clássica. Muitos reclamam a estridência de tambores e atabaques. Outros, fogem da agressividade do alto volume, que parece violentar os tímpanos, buscando o silêncio total ou a escuta de instrumentos suaves.
Naquele matrimônio em Caná, Jesus observou os alaúdes que tocavam, tornando a água em vinho, mas não ficou na festa judaica. Seguiu adiante, buscando entoar a música divina nos corações letárgicos de então.
O menestrel de Deus fez do Sermão da Montanha uma sinfonia jamais escutada nos corações. Teceu nas praias do imenso lago a música da vida plena, e tornou Seu madeiro um violão de uma corda só, nos legando pela clave de sol a mais extraordinária melodia que ouvimos em nossa história.
Quando possível, isola um pouco essa pancadaria mental dos tempos modernos e busca ouvir a natureza à tua volta.
Escuta...
Uma cascata que despenca da rocha e se faz um véu de noiva.
Um bem-te-vi ou um canarinho nos seus gorjeios no galho da laranjeira.
A sinfonia da noite no tremeluzir das estrelas.
O chocalho melancólico no pescoço da cabra vadia.
O compasso da chuva mansa, o farfalhar dos galhos agitados pelo vento da tarde.
Silenciando tua alma nesses instantes, perceberás que a pacificação íntima se faz restaurada, teu otimismo ressurge renovado e tua emoção se refaz naturalmente, te apontando rumos novos nas fainas de bem viver.
Marta
Juazeiro, 21.04.2022



