top of page

Primavera de Marta - Mensagem do dia 30.06.2022



Em exercício de imaginação criativa, pensas no que farias se te elegessem mandatário do reino terrestre. Guindado ao trono do poder temporal do mundo, todos se curvam ante tua passagem, soldados te fazem continência e súditos curvam-se em tua presença.


Qualquer desejo teu é imediatamente atendido. Assessores diversos te cercam, esperando ordens e comandos para executarem tua vontade.


E ao redor de ti os clamores até então ignorados.


Viúvas no pranto dorido da saudade pelos maridos que a morte lhes furtou, órfãos em abandono por pais inconscientes, esfaimados do pão do mundo, enfermos que a medicina não atende e sedentos por água que lhes é negada porque não podem por ela pagar.


Fazes o teu primeiro giro pelos vastos continentes e te dás conta de que medidas urgentes precisam ser tomadas, mas por onde começar?


Teus secretários e ministros te cercam de bajulação e hipocrisia, fingindo ignorar que além dos muros altos da fortaleza de poder as multidões estertoram na miséria quase que absoluta.


Conchavos criminosos te chegam aos ouvidos, em desvios de vultosas verbas do reino, relegando incontáveis súditos à desassistência e à própria sorte.


Silos fartos e a fome matando, impiedosa.


Doentes em crescente multiplicação e hospitais que nunca saíram do papel.


Descobres que milhares de crianças estão fora das escolas, impedidas de terem acesso ao conhecimento libertador.


As ruas que vais percorrer jazem apinhadas de calcetas e facínoras de ocasião, quais abutres aguardando o repasto da carne em putrefação.


A agonia em agilizar providências te assalta o coração. Desejas lavrar decretos urgentes, agilizar medidas salvadoras, edificar prédios públicos e socorrer a miséria que gargalha, mas tens uma corte indiferente e ociosa. Em derredor de teu cetro jazem os oportunistas, os corruptos, aliciadores, homens e mulheres pigmeus morais.


Burocratizam o bem e são ágeis no mal.


À socapa, salvaguardam os próprios interesses e o bem comum espera décadas para serem atendidos.


Tens agora ciência de que governar não é fácil. A máquina paquidérmica não ajuda, o servidor desatento emperra, o segundo escalão sofre de atrofia no coração e não podes vigiar tantos servidores ao mesmo tempo.


Quando pensas em fazer reformas profundas, buscando equacionar tantas distorções, despertas de teu pesadelo.


O senso comum te chama à realidade da vida.


Teu refletir na madrugada alta te dá a exata noção da distância que medeia entre os poderes temporal e espiritual. Tudo cá é passageiro, ilusório, efêmero. A realidade perenal prescinde de lacaios, castelos e exércitos.


Se faz cada dia nas pequenas ações.


Um gesto de bondade ao velhinho cansado e quase cego. Sorriso para a criança abandonada. Apoio e solidariedade à mulher desamparada. Orientação à mocidade perdida. Dez minutos de conversa com alguém triste e solitário em meio à multidão. Um conselho àquele que saiu do rumo e claudica nas estradas da vida, ignorando de onde veio e para onde vai.


Todo poder reside em Deus.


Tudo que nos chega provém de Sua bondade infinita.


Aquilo que nos falta ou não conseguimos tem uma razão de ser e de estar.


Nosso limite é nosso desafio diário.


Se o dinheiro não se mostra farto nas bolsas ou na conta bancária, nada pode impedir tua alegria de viver.


Teu lar é modesto, mas te oferta cada noite um lugar para refazer tuas fadigas.


Se tens pratos para lavar, é que eles foram usados em singelas refeições.


Uma janela aberta e tens um entardecer que dinheiro algum pode comprar.


Sobre tua cabeça um sol amarelo e farto de luz, te apontando os rumos do teu dia. E à noite, um disco de prata baila em tua calçada, te fazendo sonhar outra vez...


Sim, o maior vulto da história esteve um dia entre nós.


Surgiu numa manjedoura de palha e expirou entre ladrões.


Fez Seu ministério com doze iletrados.


Não tinha servos e se fez servidor de todos.


Eliminou a burocracia, circulando entre os mendigos, lhes ofertando pão e peixe em algumas ocasiões. Em outras, deu esperanças e renovou a alegria perdida.


Exaltou o semeador, abençoou a mostarda desprezível e acendeu claridades em incontáveis vidas que jaziam em sombras densas.


O amor era Sua moeda.


A solidariedade era seu padrão monetário.


A capital de Seu reino estava dentro de cada um.


Não distribuiu justiça. Pediu que cada um fosse justo em seus julgamentos e, na impossibilidade, deixasse de julgar o outro.


Percebeu o que éramos, o que detínhamos, mas não se prendeu aos nossos caprichos. Enxergou nosso vir a ser e nos emulou a continuar a batalha íntima até a vitória final.


Nos arrancou dos pesadelos e nos ofertou um maravilhoso sonho. Fez de Cafarnaum sede provisória de Seu reino, o Tiberíades foi feito Seu porto das divinas mercadorias e cada súdito tornou Seu amigo.


Um homem inesquecível.

Quanta falta Ele faz!


Não, não volte a dormir! Ele pede, e isso já tem dois mil anos, tua atenção e anuência ao Excelso projeto de um reino ainda ignorado por muitos, a se implantar no mundo, a começar do coração de cada um.


Como estão teus batimentos cardíacos hoje?


Marta

Salvador, 30.06.2022

Posts recentes

Ver tudo

Comments


bottom of page